A Psicopedagogia aplicada à Orientação Profissional

 
MARTINS, Paulo Fernando. Psicopedagogia Aplicada à Orientação Profissional, Revista EducaBrasil, Ano III, Edição 11, Curitiba, p. 10-11, Dez/10



“...é inerente ao psicopedagogo trabalhar mais este aprendizado, intervindo, provocando, estimulando e apoiando seus alunos nas ações cotidianas.”


Muito se fala e se estuda sobre Orientação Profissional. Mas esta não é uma preocupação atual visto que Talcott Parsons (1909 – 1979), na década de 50, “concebia a escolha profissional como resultante da comparação de duas ordens de fatores do indivíduo: seus dados pessoais e seus dados ocupacionais”.
Hoje, as escolas e alguns profissionais vêem, nesse tema, um grande diferencial de mercado para conquistar, ou manter alunos em suas instituições. São oferecidos alguns momentos de discussão, palestras e visitas, tentando dar aos educandos aquilo o que procuram. E o que é que eles procuram? Como adolescentes, os alunos gostariam que alguém lhes desse as respostas de o que fazer como profissão, fossem seus pais, fossem seus professores. A escolha é difícil, frente às novas tendências de mercado, às abrangências e aos cursos existentes nas universidades.
Os pais não sabem, na maioria dos casos, como orientar as escolhas de seus filhos. Vivem em função da correria do “dia-a-dia”, de suas próprias expectativas de vida, de sua “corrida pela sobrevivência” e não conseguem, por vezes, entender seus próprios filhos e suas necessidades. Não foram “treinados” para isso e viveram sobre outras regras sociais.
Professores envolvem-se com grades curriculares e planos de ensino, não conseguindo conversar com os alunos sobre o que é trabalhar para orientar o processo de escolha.
Assim, a Orientação Profissional está sendo feita por psicólogos, em consultórios, o que seria muito válido se não ocorresse, apenas num certo momento – dos 15 aos 17 anos. Aplicam-se testes, avaliam-se questões, mas da mesma forma é cobrada, ao sujeito aluno, sua escolha.
Nós, educadores, antes de cobrarmos a resolução final devemos auxiliar o desenvolvimento do “ato de escolher”: levantar hipóteses, avaliar responsabilidades, determinar e persistir nos objetivos e, viver decepções e frustrações. Re-escolher, se for necessário.
Desde o nascimento o indivíduo faz escolhas que vão sendo, ou deveriam ser orientadas e dirigidas por um adulto, a fim de alcançar objetivos, a partir de padrões da sociedade na qual ele está inserido.
E, quais são os padrões, hoje, do comportamento infanto-juvenil?
-    EU QUERO!
Eu quero, independente do “porquê”, do “por quanto tempo”, de “em quais condições”. Eu, simplesmente quero!
É isto o que a conjuntura social, a globalização, as questões econômicas estão mostrando aos adolescentes. Há várias coisas a se querer, e cada vez mais. Não importam os parâmetros e as condições. Pode-se querer tudo e, num mundo capitalista, tudo se compra, se consome e se joga fora.
Nossos adolescentes vivem nesse mundo de muitas opções e pouca responsabilidade por elas. Assim, como fazer a escolha de uma profissão à qual, na maioria dos casos fica-se vinculado por uma vida inteira?
A Orientação Profissional deve, antes de mostrar profissões, mostrar a vida como ela é: a busca por conquistas, as frustrações, as “perdas necessárias” envolvidas. Deve desenvolver o hábito de escolher bem: escolher com responsabilidade. Ter o hábito de escolher é, assim, uma atitude desenvolvida que será vivenciada durante toda a vida do ser humano.
Se ela pode ser ensinada, é pedagógica. Se ela é uma atitude e, assim depende de uma personalidade e de uma conjuntura social, é psicológica. Desta forma, pode ser vista como uma atividade psicopedagógica onde o sujeito estará sendo, constantemente, habilitado a fazer escolhas responsáveis, embasadas num contexto individual e social cujos objetivos estejam claros e as frustrações decorrentes não interfiram no desenvolvimento, mas, sim, sejam formas de alcançar a competência individual num processo contínuo frente a algumas opções condizentes com as próprias expectativas individuais.
É inerente ao psicopedagogo trabalhar mais este aprendizado, intervindo, provocando, estimulando e apoiando seus alunos nas ações cotidianas. Não, analisando-o num único momento de sua vida adolescente, mas em todas as fases de seu desenvolvimento, desde a infância. Pode parecer estranho falar de Orientação Profissional para crianças, mas tendo-se por base que, já nessa idade há um conjunto de tarefas desencadeadoras de opinião, isto já é um começo de orientação, orientação de escolha na qual a psicopedagogia, como ciência que estuda a aprendizagem humana, não pode ser esquecida, analisando as questões afetivas, de relacionamento do sujeito consigo mesmo e com o mundo, questões necessárias à sua manutenção como cidadão profissional do século XXI, quando a globalização existente no mundo exige, cada vez mais, uma preocupação com o meio, com o indivíduo e com a sociedade, em todas as suas relações.
Se uma das tarefas da psicopedagogia é melhorar a aprendizagem, é necessário perceber que ela envolve a análise do desenvolvimento individual, da auto-estima e do auto-conhecimento, fatores que interferem de maneira positiva no sujeito, fazendo-o perceber que toda e qualquer característica que possa ter é necessária na sociedade, também necessária no exercício de uma profissão, se houver respeito e integridade na tarefa feita e no sujeito que a faz.